O grande amor de outrora, agora só lhe dava risos envergonhados. A ilusão de, um dia, ser única aos olhos de alguém, também. Estava mais dura. Ao contrário do que possa parecer, não se sentia forte, sentia-se até mais frágil... A coragem de ver mãos suando, pernas tremendo, coração acerelando fora-se. Enfraquecera. Sem grandes traumas, o dia a dia tirou suas antigas convicções sempre tão defendidas. Vivia como alguém que não espera mais nada. Nem ninguém.
O jornal onde trabalhava vinha crescendo, à medida que sua carreira lá dentro também. Tinha uma vida estável, um apartamento e um carro próprios. Superara todas as expectativas que amigos e parentes fizeram a respeito de sua profissão. Mostrava-se feliz e satisfeita a todos que perguntassem, ainda que isso não representasse a mínima verdade. Transformara-se em alguém com hábitos e diálogos previsíveis.
Numa segunda feira qualquer, fora à cafeteria de costume e pedira, como sempre, o café preto sem açucar, enquanro abria o notebook para conferir e-mail e dar início na sua coluna diária.
Poucas frases tinham rompido o branco da página, quando alguém interrompia o silêncio com um corriqueiro 'olá'. Ao olhar para cima, viu, ou melhor, reconheceu seu professor de terceiro ano. Aquele por quem sempre tivera uma... 'quedinha', no mais suave dos termos.
- Oi, professor! - Sorriu desconsertada.
Ele ainda não conseguia disfarçar a surpresa de vê-la. Estava linda, embora não tivesse mudado muito. Parecia mais magra, cabelos mais compridos, um rosto mais adulto e, ao mesmo tempo, jovial demais.
- Professor?
- Ah, desculpe... É o costume! - Disse, enquanto levantava-se para cumprimentá-lo. - Senta aqui para um café!
- Não vai dar, desculpa. Tô super atrasado!
Ela, já sentada, olhou insatisfeita, como quem consentia.
- Você não mudou nada mesmo. - Ele riu.
Ela também, desviando o olhar.
- Foi bom de ver. Pena que por tão pouco tempo.
- Pois é... Você tá tão diferente... - Disse, pensativo - Mas a gente se fala.
- É... A gente se encontra por aí.
- Pode ter certeza que sim. - Afirmou, piscando em seguida.
Ela sorriu feliz, como há tempos não fazia. Admirava a capacidade desse homem em deixá-la feito adolescente.
Era confortante - e assustadora - a sensação de ter pelo que esperar todos os dias. Novamente.
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