Lugar diferente, gente diferente. Fazia quatro dias que me mudara. A loucura de móveis desmontados pela casa inteira não incomodava mais, já que, na última contagem, era a quarta mudança nos últimos três anos. Mas algo de novo pairava no ar. No ar e no meu dedo da mão esquerda.
Como uma perfeita dona-de-casa, seguira meu marido aonde quer que ele fosse. Tudo bem, não foi bem assim, muito antes de cogitar a hipótese, já tinha recebido propostas de emprego – melhores que a atual – na mesma cidade. Mas da mesma forma, a idéia de estar casada e de manter um matrimônio parecia assustadora.
Hoje, primeiro dia de trabalho, eu conheci meus colegas de redação. Na verdade, Ana já era uma amiga de infância e quem tinha ajudado a conseguir o cargo. Os outros pareciam bastante simpáticos. Em dado momento, ocorreu uma situação um tanto quanto engraçada e constrangedora.
Enquanto conversava com Ana e uma outra jornalista que, se bem lembrava, chamava-se Jéssica, um, até então, desconhecido passou cumprimentando todos os presentes.
- Esse! – Disse Jéssica.
- Esse o que? – Perguntei.
- É o Marcelo. – Apresentou Ana.
- O que tem ele?
- O que tem ele? Além da perfeição?
- Ah, ele é bonito. Parece simpático também. – Disse, analisando mais a fundo, com um risinho mal intencionado.
- Nossa, eu me separava por uma noite com ele! – Terminou Jéssica.
Passado o choque da revelação, todas riram. A conversa continuou até o que Ana fora chamada para cobrir algum furo de reportagem e o turno de Jéssica acabara. Estava sozinha e perdida num sofá qualquer, quando Marcelo apareceu.
- Nova por aqui? – Perguntou.
- Acertou. – Ri – Me mudei há pouco.
Ele era incrivelmente bonito.
- Está gostando? – Perguntou, puxando papo.
- Da cidade ou do emprego?
Ele riu. A risada, junto com o sotaque, só ajudavam na fama que ele parecia ter por aqui, já que todas as mulheres que passaram nesse meio-tempo, lançaram olhares dúbios para ele e mortais para mim.
- Dos dois.
- Tô gostando bastante. Dos dois. Na verdade, eu já conhecia São Paulo, morei aqui algum tempo. E o emprego, bom, não deu pra saber muito ainda, mas as pessoas parecem simpáticas e o trabalho é parecido com o que eu já fazia em Florianópolis.
- Você é de Florianópolis?
Confirmei com a cabeça.
- Machucou? – Perguntou, olhando o band-aid enrolado no meu dedo.
- Ah é, eu cort... – Ia dizendo, no momento em que ele segurou minha mão esquerda e, conseqüentemente, viu a aliança dourada. – O motivo pelo qual eu me mudei. Meu marido foi transferido. – Expliquei, sem graça.
A expressão dele, antes simpática, agora estava constrangida.
- Casada, então?
- É...
- Bom, muito bom te conhecer, mas agora eu tenho que trabalhar. Prazer, viu? – E saiu.
A minha reação, ou melhor, a falta de reação foi tamanha que sequer me despedi. Levantei e fui procurar trabalho e, com sorte, esquecer o acontecido.
Entre as várias cabines, encontrei o meu computador e tentei começar a coluna que estrearia semana que vem, sem sucesso. Ao lado, alguém parecia bastante entusiasmado com a conversa no telefone. ‘Casada? Que desperdício!... E desde quando isso foi motivo para você desistir?... E daí que tem um marido? Você não ta procurando uma esposa!... Como assim não vale à pena?... Ela não é tudo isso?’ Risos, risos, risos. Novamente, levantei-me e fui embora. Independente da sorte, essa conversa não sairia tão cedo de minha cabeça, assim como minha antipatia por Marcelo.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
Amor, em sua mente, épico, transformado em jogo cínico.
A música era ensurdecedora; as luzes, intermitentes; o ar, inexistente. A única coisa que poderia transformar aquele lugar em algo próximo de suportável, ou quem sabe até divertido, era uma bebida – alcoolica. E em grande quantidade, de preferência.
O caminho do bar parecia não ter mais fim, dados aos empurrões e encontros, mas ninguém parecia notar ou se importar. Suas amigas conversavam – ainda que não entendesse como – de forma animada, cheio de risinhos dúbios e mal intencionados. A felicidade naquele lugar era eloquente e até ofensiva, para quem olhava - e somente olhava.
Já perto do barman, alguém segurou seu braço. O impulso de, sem olhar, tirar rapidamente foi interrompido com um tom de voz familiar cumprimentando-a.
- Oi!
Ao se virar, reconheceu o rosto dos corredores da universidade em que estudava. Ele nunca sequer cumprimentara com um olhar ou aceno. Tinha a certeza de que a odiava, ainda que sem motivos. Era bonito e simpático, pela opinião geral. Ela duvidava da última parte, todavia não podia negar a primeira. Agora estava ali, com um sorriso gentil.
- Oi, tudo bem? - Retribuiu.
Sem uma palavra, puxou-a para o lounge, onde a música tornava-se mais calma e baixa.
- Ana seu nome, certo?
- Sim. O seu é Gabriel.
- Acho que já estamos apresentados, então.
- É... Por que?
A resposta começou em forma de um beijo. Forte e intenso. E terminou numa cama desconhecida, com um semi-desconhecido do outro lado. Já tinha amanhecido quando acordou e viu que estava sozinha num quarto pequeno e, no bidê, havia um bilhete escrito algo como ‘Tive que sair cedo. Beijo, Gabriel.’. Levantou, vestiu as roupas e deixou aquele lugar sem saber se voltaria a estar ali.
O final de semana acabou e a Segunda-feira trouxa o confronto inevitável. Durante o intervalo de uma aula e outra, ele estava lá, no corredor, com amigos. Ela passou e, como sempre, fingiram que não se conheciam.
O caminho do bar parecia não ter mais fim, dados aos empurrões e encontros, mas ninguém parecia notar ou se importar. Suas amigas conversavam – ainda que não entendesse como – de forma animada, cheio de risinhos dúbios e mal intencionados. A felicidade naquele lugar era eloquente e até ofensiva, para quem olhava - e somente olhava.
Já perto do barman, alguém segurou seu braço. O impulso de, sem olhar, tirar rapidamente foi interrompido com um tom de voz familiar cumprimentando-a.
- Oi!
Ao se virar, reconheceu o rosto dos corredores da universidade em que estudava. Ele nunca sequer cumprimentara com um olhar ou aceno. Tinha a certeza de que a odiava, ainda que sem motivos. Era bonito e simpático, pela opinião geral. Ela duvidava da última parte, todavia não podia negar a primeira. Agora estava ali, com um sorriso gentil.
- Oi, tudo bem? - Retribuiu.
Sem uma palavra, puxou-a para o lounge, onde a música tornava-se mais calma e baixa.
- Ana seu nome, certo?
- Sim. O seu é Gabriel.
- Acho que já estamos apresentados, então.
- É... Por que?
A resposta começou em forma de um beijo. Forte e intenso. E terminou numa cama desconhecida, com um semi-desconhecido do outro lado. Já tinha amanhecido quando acordou e viu que estava sozinha num quarto pequeno e, no bidê, havia um bilhete escrito algo como ‘Tive que sair cedo. Beijo, Gabriel.’. Levantou, vestiu as roupas e deixou aquele lugar sem saber se voltaria a estar ali.
O final de semana acabou e a Segunda-feira trouxa o confronto inevitável. Durante o intervalo de uma aula e outra, ele estava lá, no corredor, com amigos. Ela passou e, como sempre, fingiram que não se conheciam.
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