quarta-feira, 9 de junho de 2010

But you, you’re not allowed.

Lugar diferente, gente diferente. Fazia quatro dias que me mudara. A loucura de móveis desmontados pela casa inteira não incomodava mais, já que, na última contagem, era a quarta mudança nos últimos três anos. Mas algo de novo pairava no ar. No ar e no meu dedo da mão esquerda.
Como uma perfeita dona-de-casa, seguira meu marido aonde quer que ele fosse. Tudo bem, não foi bem assim, muito antes de cogitar a hipótese, já tinha recebido propostas de emprego – melhores que a atual – na mesma cidade. Mas da mesma forma, a idéia de estar casada e de manter um matrimônio parecia assustadora.
Hoje, primeiro dia de trabalho, eu conheci meus colegas de redação. Na verdade, Ana já era uma amiga de infância e quem tinha ajudado a conseguir o cargo. Os outros pareciam bastante simpáticos. Em dado momento, ocorreu uma situação um tanto quanto engraçada e constrangedora.
Enquanto conversava com Ana e uma outra jornalista que, se bem lembrava, chamava-se Jéssica, um, até então, desconhecido passou cumprimentando todos os presentes.
- Esse! – Disse Jéssica.
- Esse o que? – Perguntei.
- É o Marcelo. – Apresentou Ana.
- O que tem ele?
- O que tem ele? Além da perfeição?
- Ah, ele é bonito. Parece simpático também. – Disse, analisando mais a fundo, com um risinho mal intencionado.
- Nossa, eu me separava por uma noite com ele! – Terminou Jéssica.
Passado o choque da revelação, todas riram. A conversa continuou até o que Ana fora chamada para cobrir algum furo de reportagem e o turno de Jéssica acabara. Estava sozinha e perdida num sofá qualquer, quando Marcelo apareceu.
- Nova por aqui? – Perguntou.
- Acertou. – Ri – Me mudei há pouco.
Ele era incrivelmente bonito.
- Está gostando? – Perguntou, puxando papo.
- Da cidade ou do emprego?
Ele riu. A risada, junto com o sotaque, só ajudavam na fama que ele parecia ter por aqui, já que todas as mulheres que passaram nesse meio-tempo, lançaram olhares dúbios para ele e mortais para mim.
- Dos dois.
- Tô gostando bastante. Dos dois. Na verdade, eu já conhecia São Paulo, morei aqui algum tempo. E o emprego, bom, não deu pra saber muito ainda, mas as pessoas parecem simpáticas e o trabalho é parecido com o que eu já fazia em Florianópolis.
- Você é de Florianópolis?
Confirmei com a cabeça.
- Machucou? – Perguntou, olhando o band-aid enrolado no meu dedo.
- Ah é, eu cort... – Ia dizendo, no momento em que ele segurou minha mão esquerda e, conseqüentemente, viu a aliança dourada. – O motivo pelo qual eu me mudei. Meu marido foi transferido. – Expliquei, sem graça.
A expressão dele, antes simpática, agora estava constrangida.
- Casada, então?
- É...
- Bom, muito bom te conhecer, mas agora eu tenho que trabalhar. Prazer, viu? – E saiu.
A minha reação, ou melhor, a falta de reação foi tamanha que sequer me despedi. Levantei e fui procurar trabalho e, com sorte, esquecer o acontecido.
Entre as várias cabines, encontrei o meu computador e tentei começar a coluna que estrearia semana que vem, sem sucesso. Ao lado, alguém parecia bastante entusiasmado com a conversa no telefone. ‘Casada? Que desperdício!... E desde quando isso foi motivo para você desistir?... E daí que tem um marido? Você não ta procurando uma esposa!... Como assim não vale à pena?... Ela não é tudo isso?’ Risos, risos, risos. Novamente, levantei-me e fui embora. Independente da sorte, essa conversa não sairia tão cedo de minha cabeça, assim como minha antipatia por Marcelo.

domingo, 6 de junho de 2010

Amor, em sua mente, épico, transformado em jogo cínico.

A música era ensurdecedora; as luzes, intermitentes; o ar, inexistente. A única coisa que poderia transformar aquele lugar em algo próximo de suportável, ou quem sabe até divertido, era uma bebida – alcoolica. E em grande quantidade, de preferência.
O caminho do bar parecia não ter mais fim, dados aos empurrões e encontros, mas ninguém parecia notar ou se importar. Suas amigas conversavam – ainda que não entendesse como – de forma animada, cheio de risinhos dúbios e mal intencionados. A felicidade naquele lugar era eloquente e até ofensiva, para quem olhava - e somente olhava.
Já perto do barman, alguém segurou seu braço. O impulso de, sem olhar, tirar rapidamente foi interrompido com um tom de voz familiar cumprimentando-a.
- Oi!
Ao se virar, reconheceu o rosto dos corredores da universidade em que estudava. Ele nunca sequer cumprimentara com um olhar ou aceno. Tinha a certeza de que a odiava, ainda que sem motivos. Era bonito e simpático, pela opinião geral. Ela duvidava da última parte, todavia não podia negar a primeira. Agora estava ali, com um sorriso gentil.
- Oi, tudo bem? - Retribuiu.
Sem uma palavra, puxou-a para o lounge, onde a música tornava-se mais calma e baixa.
- Ana seu nome, certo?
- Sim. O seu é Gabriel.
- Acho que já estamos apresentados, então.
- É... Por que?
A resposta começou em forma de um beijo. Forte e intenso. E terminou numa cama desconhecida, com um semi-desconhecido do outro lado. Já tinha amanhecido quando acordou e viu que estava sozinha num quarto pequeno e, no bidê, havia um bilhete escrito algo como ‘Tive que sair cedo. Beijo, Gabriel.’. Levantou, vestiu as roupas e deixou aquele lugar sem saber se voltaria a estar ali.
O final de semana acabou e a Segunda-feira trouxa o confronto inevitável. Durante o intervalo de uma aula e outra, ele estava lá, no corredor, com amigos. Ela passou e, como sempre, fingiram que não se conheciam.

domingo, 16 de maio de 2010

Não há como ignorar a beleza que existe em toda tristeza. A individualidade da dor, ao atingir cada um de nós, é quase poética. As lágrimas possuem um fundo de verdade já não visto mais, enquanto a agonia transforma a pressa em câmera lenta. É como se não coubéssemos dentro de nós e transcendêssemos o limite da matéria. Espalhamo-nos pelo ar e a dor se esvai; vira lembrança, saudade, nostalgia.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Com vocês, a estrada é mais segura (L)

Amizade. Tantas vezes diferentes, tantas vezes repentinas, tantas outras de longas datas, mas sempre tão importantes e necessárias. Uma completa a outra, transforma o conjunto numa coisa só, coisa essa que poderia até chamar de felicidade, de realização.
Cada uma chega de uma forma diferente, numa fase distinta e oferecendo exatamente o que, no momento, precisamos. Algumas duram pouco, mas cumprem seus papéis e causam um bem enorme. Outras se consolidam e caem no ‘para sempre’.
Tenho alma inquieta, que reflete nos pés a balançar, a cabeça nos ares, a insatisfação constante, todavia, a dificuldade de estabelecer contato diário e íntimo é percebida nas primeiras palavras trocadas. Os poucos que permanecem comigo, ganham um valor imensurável. Vale a pena citar algumas, e tentar, em vão, mostrar um pouco do que significam para mim.
Dentre elas, começo pela mais antiga e talvez mais íntima. Tão diferente. Há mais de doze anos e, melhores amigas por seis ou sete anos, sempre foi aquela com a qual eu falava mal dos outros, ajudava nas notas do colégio, fazia trabalhos, íamos uma para casa da outra simplesmente para conversar, ouvir música, rir das coisas. Agora um pouco mais distante, por motivos que, infelizmente, fogem do controle, mas ainda muito amiga, muito confiável. É daquelas que você fica um ano sem falar e, depois de 5 minutos, volta tudo a ser como antes, seja nos desabafos, no dia-dia, na vida.
Outra ao mesmo tempo em que é muito parecida, é muito diferente e, talvez por isso, completamo-nos. É aquela que você pode contar pros programas mais inusitados e de última hora. Também é muito antiga. É como se soubéssemos tudo uma da outra. Com altos e baixos, hoje estamos bem. É uma pessoa importante pra mim.
Agora, indo para as mais recentes, ela mostrou que as aparências enganam e o tempo não é determinante numa amizade. Há três anos apareceu em meu cotidiano e, aos poucos, fomos confiando uma na outra, dividindo problemas, angústias, convivência. Há dois anos tudo se intensificou e, mesmo com o fim do colégio, pessoas novas, a amizade continua ali, próxima. É aquelas que você sempre procura para contar o que há de novo, ou pedir conselhos, ou receber conforto.
Também há três anos, graças a espelhos de classe, conheci-a. Sempre alegre e bem-humorada e contando suas histórias hilárias, foi ganhando espaço na minha vida e se tornou uma pessoa incrivelmente amável. É daquelas que você não vê sempre, mas sabe que pode contar e, quando vir, tudo continuará lá, intacto, igual. Sinto falta dos dias com ela.
Por último, trago a amizade de internet que deixou de ser somente virtual. Sem simpatia no primeiro instante ou mútua, aos poucos ela insistiu e me convenceu que eu estava errada a seu respeito. Hoje, mesmo longe, toma um espaço real. Com ela, as férias nunca mais serão as mesmas.
Já que falei em amizades virtuais, cito também umas 5 outras pessoas que, por aí, conheci e gostei. Ainda que muitos não acreditem, eu dou uma grande importância para elas por um simples motivo: não precisaram do convívio diário para surgir o interesse. Vieram de afinidades espontâneas.
Além delas, um fofo também se tornou importante, seja com sua percepção incrível em saber quando algo está fora do curso normal, seja com suas expressões, seja com os cafés incríveis que só tenho com ele. A vida não nos colocou com rotinas, horários, locais parecidos, mas nossa amizade dá conta disso.
Torço, com todas as minhas forças, para que todas essas pessoas permaneçam comigo, ainda que em caminhos diferentes, que nos cruzemos sempre e mantenhamos o que construímos com tanta sinceridade e naturalidade, no decorrer dos anos.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Solidão de ser só dois [ou mil]

A pior solidão que pode existir é aquela acompanhada. É quando ela deixa de ser um estado e passar a ser uma pessoa, ou milhões delas. Quanto mais cheio o lugar, mais sós e incompletos nos sentimos. A mais doce palavra só representa a certeza de que, mesmo tendo tudo, não estamos satisfeito. Algo falta. Algo que ninguém sabe o que é, e, ao mesmo tempo, é quase palpável. Tem cor, forma, sabor.
E dói. Dói muito. É o vazio que fere mais que um corte, um machucado. Pior: Não cicatriza, apenas acostuma-se. Uma ferida aberta sem chances de, um dia, sua marca causar apenas lembrança, e não mais dor.
Os dias seguem, sem grandes dramas ou tragédias, todavia, é a calma da indiferença, da não-importância que traz consigo a convicção do dia perdido, da semana perdida... Da vida perdida. A vida não só sua, como também dos que, nela, se fazem presentes.
O telefone toca, mas o coração não acelera. Recadinhos são escritos, mas os dedos não têm a reação imediata de desdobrar o papel. Intenções são claras, mas falta vontade de levá-la adiante. A comodidade da vida de outono quase enlouquece na sua mansa – quase parada – caminhada. O corpo tranqüiliza. A alma explode em desespero.

domingo, 4 de abril de 2010

"Posso ser generoso pelo egoísmo. Posso ser amoroso pela tirania. Posso ser educado pela vergonha. Vê só o quanto uma virtude esconde uma maldade. Eu sou o resultado ou a origem daquilo que cumpro? O que tem peso maior: minha vontade ou o ato?"


CARPINEJAR, Fabrício.

sábado, 3 de abril de 2010

I'll wait for you.

O grande amor de outrora, agora só lhe dava risos envergonhados. A ilusão de, um dia, ser única aos olhos de alguém, também. Estava mais dura. Ao contrário do que possa parecer, não se sentia forte, sentia-se até mais frágil... A coragem de ver mãos suando, pernas tremendo, coração acerelando fora-se. Enfraquecera. Sem grandes traumas, o dia a dia tirou suas antigas convicções sempre tão defendidas. Vivia como alguém que não espera mais nada. Nem ninguém.
O jornal onde trabalhava vinha crescendo, à medida que sua carreira lá dentro também. Tinha uma vida estável, um apartamento e um carro próprios. Superara todas as expectativas que amigos e parentes fizeram a respeito de sua profissão. Mostrava-se feliz e satisfeita a todos que perguntassem, ainda que isso não representasse a mínima verdade. Transformara-se em alguém com hábitos e diálogos previsíveis.
Numa segunda feira qualquer, fora à cafeteria de costume e pedira, como sempre, o café preto sem açucar, enquanro abria o notebook para conferir e-mail e dar início na sua coluna diária.
Poucas frases tinham rompido o branco da página, quando alguém interrompia o silêncio com um corriqueiro 'olá'. Ao olhar para cima, viu, ou melhor, reconheceu seu professor de terceiro ano. Aquele por quem sempre tivera uma... 'quedinha', no mais suave dos termos.
- Oi, professor! - Sorriu desconsertada.
Ele ainda não conseguia disfarçar a surpresa de vê-la. Estava linda, embora não tivesse mudado muito. Parecia mais magra, cabelos mais compridos, um rosto mais adulto e, ao mesmo tempo, jovial demais.
- Professor?
- Ah, desculpe... É o costume! - Disse, enquanto levantava-se para cumprimentá-lo. - Senta aqui para um café!
- Não vai dar, desculpa. Tô super atrasado!
Ela, já sentada, olhou insatisfeita, como quem consentia.
- Você não mudou nada mesmo. - Ele riu.
Ela também, desviando o olhar.
- Foi bom de ver. Pena que por tão pouco tempo.
- Pois é... Você tá tão diferente... - Disse, pensativo - Mas a gente se fala.
- É... A gente se encontra por aí.
- Pode ter certeza que sim. - Afirmou, piscando em seguida.
Ela sorriu feliz, como há tempos não fazia. Admirava a capacidade desse homem em deixá-la feito adolescente.
Era confortante - e assustadora - a sensação de ter pelo que esperar todos os dias. Novamente.