Aurélia Camargo.
Hoje, não sei o porquê, resolvi reler a cena do baile, no livro Senhora. A partir daí, comecei a procurar livros, comunidades, opiniões e, inconscientemente, acabo aqui, tentando definir essa personagem que tanto fascina.
Como todo romance romântico, temos a boa moça, que, nesse livro, é representada por Aurélia. Pobre, destemida, se apaixona por um jovem elegante - porém não rico - da corte. Até aí, nada além do esperado. O que mais surpreende é que, com tantas perdas (do pai, do avô, da mãe...), a única que realmente a endureceu foi a perda de sua paixão: Fernando.
Agora já rica, nada a satisfaz ou emociona, exceto ele, Fernando. E, como solução, ela resolve ceder sua vida, em prol de uma vingança. Casa-se com Fernando, por um dote ainda maior do que sua oferta anterior, e abdica de qualquer felicidade. Em sua noite de núpcias, conta a Fernando toda a farsa e avisa-o que o comprara e que, de agora em diante, o tem como propriedade.
Mesmo que digam que o casamento foi uma forma de vingança, vejo por outro lado: Ela é orgulhosa demais para perdoar e aceitá-lo, depois de tudo que acontecerra, todavia, ama-o a ponto de preferir viver em um inferno com ele a ficar sem. É uma tentativa desesperada de mantê-lo em sua vida, ainda que dessa forma, ainda que o desprezando. A prova disso é que, ao perceber o fim, o afastamento, ela se joga ao pés dele e implora perdão (cena essa que não me agrada).
É incrível como, mesmo com tantas mágoas e agressões, eles se estremecem um na presença mais próxima do outro. Preocupam-se e importam-se como amantes e amados. A cena do baile representa bem isso. O momento em que Fernando enlaça Aurélia pela cintura e o tremor que sentem, a paixão em olhares e situis toques, o pedido (dessa vez pedido, não ordem) para que continuassem ali, próximos e a total obediência de Fernando (voluntária). A necessidade de permanecerem ali e, por fim, o 'beijo', o toque de lábios que desconstruiu toda a força que Aurélia tentara demonstrar até o momento.
Aurélia tanto teme o fim daquilo que alimentou sua vida, tanto teme que, um dia, possam lembrar um do outro sem sentimento algum - bom ou ruim -, que prefere arriscar a liberdade - sua e dele.
É doentio, é fascinante.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário